Poetimologia Filosófica - breve apresentação
- Pedro Ivo
- 23 de fev.
- 3 min de leitura
Atualizado: 26 de fev.
Qualquer idioma é um arcabouço pulsante de riquezas — riquezas das quais raramente nos damos conta, porque perdemos contato com a história das palavras, com o desenvolvimento das ideias, dos conceitos e da própria linguagem.
A etimologia nos ajuda a resgatar e perceber essa riqueza. Ela é o estudo da origem e da história das palavras: de seus significados iniciais, de como surgem nas primeiras aparições documentadas e de como esses sentidos se mantêm, se expandem ou se transformam ao longo do tempo.
Os processos que regem a formação de palavras e de novos sentidos se apoiam sobretudo na analogia, na comparação e na associação - características de um fenômeno são transferidas para outro campo, adquirindo novos usos, sentidos mais amplos ou mais restritos. As analogias são tão comuns no uso da língua que quase não as notamos, por exemplo, acabei de utilizar a palavra “campo” em uma frase anterior, hoje naturalmente presente em construções como “campo de estudo”, por analogia ao seu uso inicial que significava “local aberto no terreno”.
Na gramática, falamos da “raiz” de uma palavra — a parte que guarda sua essência semântica. Esse termo foi emprestado da botânica: uma planta pode perder folhas, flores ou ramos, mas não pode existir sem a raiz, ela é o fundamento; uma palavra pode ter variações (sufixos, desinências, etc.), mas a raiz é necessária para que a palavra sustente seu núcleo de sentido. Também falamos em “ramos” do conhecimento ou “ramos” da ciência: tomamos da planta a imagem daquilo que se irradia a partir de um tronco comum e se diferencia. As palavras são transplantadas de um campo para outro, por analogia.
Esse processo está na raiz da linguagem e renova incessantemente o seu dinamismo e vitalidade. A etimologia nos ajuda a perceber isso com clareza.
Porém, aqui eu proponho algo que chamo de poetimologia — termo que é a fusão entre poesia e etimologia, mas que comunica mais do que essa junção, é um meio de revelar a poesia latente nas palavras e os processos criativos-poéticos na natureza da própria linguagem.
A origem e o desenvolvimento das palavras, assim como de um idioma inteiro, são semelhantes à criação poética. A própria palavra “poesia” vem do grego poíesis, que significa “fazer”, “criar”. Os mecanismos que regem tanto a criação de palavras e conceitos quanto o uso de um mesmo termo em diferentes contextos — como nos exemplos de “raiz” e “ramo” — são os mesmos que regem a poesia: analogia, metáfora, deslocamento de sentido, entre outros.
Não é possível aprofundar aqui a definição de poesia, mas a linguagem poética nos conecta de modo mais intenso com o mundo e com a nossa realidade interior. É uma linguagem que consegue comunicar e revelar aspectos e experiências muito difíceis de expressar e para isso se utiliza de inúmeros recursos: sonoridade, imagens, comparações, metáforas, combinações inusuais de palavras e assim por diante.
Com poetimologia, quero chamar atenção para o fato de que existe uma poesia intrínseca à linguagem. Estudar poesia em profundidade é, em certo sentido, estudar etimologia. E estudar etimologia em sua forma mais viva é também estudar poesia.
A Poetimologia desvela a essência poética latente nas palavras: suas camadas mais profundas e amplas de sentido, imagens, metáforas, beleza e poder. Torna visível os processos criativos e poéticos que moldaram os conceitos e os significados que hoje usamos de modo automático.
Em seguida, acrescentei o termo “filosófica”, que evoca reflexão, investigação e questionamento. Mas, seguindo a própria via etimológica, phílos (amor, afinidade) e sophía (sabedoria) compõem philosophía (“amor à sabedoria”), termo cuja criação é tradicionalmente atribuída a Pitágoras, associado a uma busca que envolvia não apenas especulação intelectual, mas transformação interior, cultivo da consciência e do modo de viver.
Investigação e reflexão fazem parte do que proponho aqui, mas desejo também contribuir para extrair algo da sabedoria imanente às palavras e aos processos que as geram e, através de investigações e questionamentos, expandir a percepção, a sensibilidade e as possibilidades de experiência, em suma, ampliar a consciência por meio da consciência da linguagem e da riqueza poética que nela habita.
Poetimologia Filosófica - atravessar a superfície dos termos, encontrar e trazer de volta a alma da palavra que se extraviou do vocábulo. Desvelar a essência poética viva que pulsa sob a casca das palavras desgastadas no cotidiano e extrair a sabedoria pragmática e mágica que vibra escondida nas vísceras dos conceitos e nos fluxos da linguagem.


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