PALAVRA - PARÁBOLA
- Pedro Ivo
- 26 de fev.
- 3 min de leitura
É fácil perceber a semelhança sonora entre “palavra” e “parábola”, e não é a toa, “palavra” deriva do latim parabola, que por sua vez vem do grego parabolḗ. Em português, os termos se separaram semanticamente — palavra tornou-se uma u
nidade básica da linguagem e parábola seguiu com o seu significado de pequena narrativa simbólica.
Parabolḗ deriva do verbo parabállein, composto de:
para- = ao lado, junto de
bállein = lançar, arremessar, pôr
Parabolḗ significa, portanto, “colocar uma coisa ao lado de outra”, “aproximar para comparar”, “lançar junto (para tornar visível por analogia)”.
Do grego ao latim, do latim ao português
No grego clássico, parabolḗ designava:
comparação
analogia
justaposição simbólica
exemplo elucidativo
figura retórica
No latim, parabola manteve esses sentidos:
comparação
discurso figurado
narrativa simbólica
Assim, o termo palavra guarda em si a parábola, o simbólico, a expressão figurada, a comparação, uma transposição entre planos.
Antes da palavra: lógos, mýthos, rhêma, ónoma, épos
No grego antigo, não havia um termo único equivalente ao nosso conceito moderno de “palavra”. Havia campos semânticos distintos:
Lógos: discurso, razão, princípio estruturante da realidade
Mýthos: narrativa fundadora, enunciação simbólica primordial, “história” sagrada, divina
Rhêma: fala em ato, enunciação performativa
Ónoma: nome, aquilo que convoca algo à presença
ἔπος (épos): palavra dita, enunciado solene, fala narrativa (especialmente na tradição épica)
Nenhum deles corresponde à noção moderna de palavra como signo linguístico.
Parábola: linguagem como travessia
Na tradição bíblica, especialmente nos evangelhos, a parábola torna-se uma forma privilegiada de transmissão de verdades interiores por meio de imagens exteriores. Ela não comunica conceitos abstratos, ela transporta o ouvinte de um nível de experiência para outro.
Um elemento material - água, pão, semente, campo - passa a representar realidades psíquicas e espirituais. A água torna-se símbolo daquilo sem o qual a vida interior se extingue: assim como o corpo morre sem água, a consciência também “morre” sem sua própria forma invisível de nutrição.
Na famosa parábola do semeador, a semente cai na beira do caminho e é comida por aves, na rocha, entre espinhos e em solo fértil.
A semente é a palavra, o ensinamento, a verdade que traz uma possibilidade de transformação. A própria parábola pode ser a semente.
Ao cair na beira do caminho e ser consumida pelas aves, a semente-palavra nem mesmo germina, rapidamente é consumida / destruída por outros elementos.
Na rocha, com pouca terra, símbolo de uma mente rígida e superficial, nada pode realmente se desenvolver, não há espaço para criar raízes. A palavra-semente germina, mas logo morre, é esquecida.
Entre os espinhos, há solo fértil, a semente brota e cresce, mas é sufocada por outras plantas: ideias confusas, afetos hostis, distrações contínuas.
No solo fértil e preparado — onde houve escolha, cuidado e cultivo — a semente cresce, floresce, frutifica e se multiplica. Um pequeno ensinamento transforma-se em sabedoria viva.
Essa é a força de uma parábola: uma história curta que contém um universo de desdobramentos possíveis. Um texto que não se esgota na leitura, mas se abre à contemplação.
Cada palavra pode ser como uma semente. No solo raso do uso cotidiano, da mente entulhada de clichês, estereótipos e conceitos engessados, a palavra não germina e não revela sua riqueza. No solo fértil da contemplação, da escuta e da imaginação, ela cria raízes, flores, frutos — enriquecendo nosso ambiente psíquico com sentido, beleza e poder.
A Palavra como vórtice entre mundos
Mas podemos ir mais longe. Assim como a parábola é uma narrativa construída com elementos do mundo exterior para tocar realidades interiores, também as palavras são formas sensíveis — sons, grafias, vibrações — que condensam realidades invisíveis: pensamentos, afetos, percepções, experiências, intuições, intenção, vontade.
As palavras não apenas expressam pensamentos: elas os moldam e criam.
Não apenas traduzem experiências: elas as escondem, revelam ou esculpem.
As palavras não apenas descrevem o que já existe: por um lado prescrevem, determinam; por outro, permitem e desvelam e criam.
As palavras são vórtices: pontos de condensação / sutilização e transporte entre a matéria e a mente, entre o corpo e o mundo, entre as diferentes dimensões da realidade e da consciência.

Referências
Chantraine, P. Dictionnaire étymologique de la langue grecque. Verbete: παραβολή, βάλλω.
Ernout, A.; Meillet, A. Dictionnaire étymologique de la langue latine. Verbete: parabola.
Lewis, C. T.; Short, C. A Latin Dictionary. Verbete: parabola.
Oxford Latin Dictionary. Verbete: parabola.
Liddell, H. G.; Scott, R.; Jones, H. S. Greek-English Lexicon (Classical Oxford Dictionary). Verbete: παραβολή.
Houaiss. Verbete: palavra, parábola.

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